Não, hoje não é meu aniversário... Sabe que data é hoje? 23 de setembro, Dia Internacional da Bissexualidade! Foi em 1999 que a data foi celebrada primeira vez durante a XXII Conferência Mundial da ILGA (International Lesbian and Gay Association) em Joanesburgo, África do Sul. A data foi escolhida por marcar a morte de Freud, o primeiro teórico a conceber a possibilidade da existência da bissexualidade!
Thanks, Freud! ![]()
Mas não é por isso exatamente que estou aqui. Hoje, além dessa comemoração, tenho também outra: faz exatos 5 meses que eu me assumi pro Humberto*, meu namorado. Falei pouco sobre isso no blog, e agora eu quero olhar pra esses 5 meses que se passaram e ver no que foi que essa confissão evoluiu. Não foi nada planejado... Estávamos nós dois sentados numa calçada, curtindo uma bela tarde, quando de repente me surgiu a ideia. Na verdade acho que a idéia era uma sementinha dentro mim, florescendo aos poucos, pois já estávamos há quase 2 anos juntos e, sinceramente, eu não tinha mais dúvidas quanto à questão de confiar nele, de contar minhas coisas, de ouvir coisas dele... Eu sabia, àquela altura, que ele não era um canalha do tipo dos caras que eu confiei anteriormente no meu passado. Ele era “O” cara. De repente, achei que naquele clima tranqüilo eu poderia cuspir a verdade no colo dele, como se NADA pudesse estragar aquele momento simples e mágico, como se aquela tarde perfeita pudesse me proteger de qualquer tipo de reação.
Era hora. Eu confiava nele, ele em mim. Ele não era apenas mais um namorado, era alguém mais do que especial e, pra alguém assim, que me amava de uma forma gigantesca, achei que eu poderia ser eu mesma, em todo o sentido que o termo reserva. Eu poderia ser a namorada, a amante, a amiga e a bissexual. Achei que ele fosse me amar assim mesmo, mesmo depois de saber. Mas, no segundo seguinte, me imaginei contando a verdade e depois tudo se desmoronando a minha volta: a tarde perfeita, a tranqüilidade, a confiança e o amor dele por mim. Eu olhava pra ele e pensava: e seu perdesse isso tudo numa fração de segundo? Respirei fundo e desisti.
No dia seguinte não houve tarde perfeita, apenas um dia comum. Inexplicavelmente aquela vontade de contar tudo voltou. Não sei de onde veio, mas não sei por que também não se foi. Era 23 de abril, um sábado. Estávamos eu e ele na cama, conversando coisas que não tinham nada a ver com o assunto, mas era no assunto que eu pensava. De repente, como num sinal divino, o assunto mudou de um segundo pro outro para bissexualidade. Me vi num beco sem saída. Era contar ou continuar omitindo (e fingindo ser a mais heterossexual das mulheres que ele conheceu). Era contar e tê-lo ou contar e perdê-lo.
Eu não o perdi, pois, como previ, o amor falou mais alto. A sinceridade, a verdade, por mais que doa, é o jogo mais limpo que se há de jogar. Falei de tudo: de quando eu me descobri, do meu interesse gigante por mulheres, das minhas ex-namoradas... Inclusive falei que a menina que eu chamava de minha melhor amiga era na verdade uma delas! E falei do blog pra ele, pois como eu tinha vivido muita coisa, eu nunca conseguiria contar tudo pra ele numa tarde. Então ele leu partes do blog aleatoriamente... Apesar de todo esse choque inicial, ele veio até mim numa tarde e jogou limpo comigo. Não que ele tivesse aprontado alguma coisa contra mim, mas ele, depois de saber das minhas verdades, me contou coisas da vida dele, o passado, os erros, das experiências boas e ruins. Eu, que estava aliviada em estar transparente pra ele, agora via um Humberto também completamente transparente pra mim. Ao invés de eu ganhar um chute na bunda por ter escondido a minha bissexualidade por tanto tempo, ganhei a confiança dele e passei a confiar mais nele por ele ter complementado esse nível de comunicação sincera entre nós dois. Porém, nem tudo é um mar de rosas! As semanas seguintes foram um inferno... Todos os dias ele lia o blog, desde o primeiro site a esse que você está lendo, e depois me fazia mil perguntas, questionamentos, cobranças... Era todo um mar de insegurança, ciúme, raiva... Pra mim, era tudo muito distante... Não me refiro a minha atração sexual por mulheres, mas as experiências. Pra mim os namoros haviam acabado e era com ele com quem eu estava agora, anos depois; pra ele era tudo muito recente, como se a minha primeira transa (com a Flávia*) tivesse sido ontem, pois ler os textos proporcionava isso nele.
Durante mais de um mês a minha bissexualidade era praticamente o único assunto no qual falávamos. De repente não havia outra coisa: era isso e o sofrimento dele. Por várias vezes o Humberto caía copiosamente no choro por causa disso. Ele achava que ia me perder, que numa esquina qualquer eu iria encontrar alguma garota interessante, que eu iria perder o juízo e largar tudo pras ficar com ela. Passei da fase de dar apoio a fase da impaciência, pois vê-lo SEMPRE achar que eu ia largá-lo me fazia crer que ele não acreditava no amor que eu sentia por ele e no quanto eu queria investir nessa relação. Mas eu aguentava, apesar de ter sido uma fase bem (mas bem) difícil. Eu sabia que, passando por aquilo, o que viesse era lucro. Ou isso ou ele enlouqueceria de vez e me deixaria. Sim, eu ainda pensava nisso às vezes. Achava que ele iria fazer igual a minha mãe: no dia seguinte em que eu me assumi pra ela, foi uma maravilha! Ela me encheu de beijos, me tratou bem; semanas depois, surtou e proibiu minha namorada (na época) de pisar aqui em casa. Claro, isso mudou, ela se redimiu com minha ex porque viu que ela sendo bi não fazia dela uma má pessoa, mas até hoje, se eu falar da minha bissexualidade com ela, no segundo seguinte ela muda de assunto, me magoando ao fazer com que eu me sinta renegada depois de tudo.
Depois de muita, mas muita conversa com o Humberto, as coisas foram se acalmando. Quero até te mostrar um comentário que ele postou no dia 15 de junho num blog chamado Insurreta (hãn???), cujo post tinha o título de ‘Como assim, bissexual?’. Ele achou o texto, leu e comentou o seguinte:
Humberto da Janine said...
“Olá. Faz tanto tempo que vc escreveu que nem sei se vai ver meu comentário, mas vou escrever mesmo assim. Seguinte: Sou hétero, namoro sério a garota mais incrível de todos os tempos e, depois de quase dois anos de relacionamento sólido ela resolve me confidenciar que é bissexual. Meu queixo caiu! Tem menos de dois meses que eu soube e ainda estou me recuperando do golpe. O pior já passou. Não tenho nenhuma dúvida do amor que ela sente por mim. Mas confesso que ver esse mundo novo se abrir pra mim me assustou bastante. Simplesmente não tinha a menor ideia que minha namorada, a quem eu achava que conhecia tão bem, tinha um passado ao qual eu ignorava totalmente. O maior baque foi a surpresa da notícia. Não tenho a menor dúvida de que ela quer as mesmas coisas que eu em relação ao nosso namoro. Pra trair, não precisa ser bi, homo ou hétero. Se trai independentemente da orientação sexual. Mas também não posso negar que veio um monte de inseguranças. Afinal, é um mundo completamente novo, ao qual eu não esperava jamais, e que agora eu faço parte. Ela é não assumida. Só a mãe e algumas poucas amigas mais íntimas e as ex namoradas, óbvio, é que sabem. Inclusive ela tem um blog muito famoso que fala sobre o assunto. foi nele que ela viu uma maneira de falar sobre, e de aprender muito acerca da sua sexualidade. Nesse mundo cheio de preconceitos, qualquer pessoa que fuja do padrão familiar imposto desde os primórdios, é alvo de saraivadas, não importando ser bi, lésbica, gay ou whatever. Continuo amando minha namorada com todas as minhas forças, porque ela é a mulher que me faz feliz. É ela a quem eu amava, antes de me dar a notícia. Não haveria de mudar depois. Sim, tenho medo de vez em quando, fico ainda meio que sem acreditar, lampejos de ciúmes, mas no geral estou saindo melhor que a encomenda, me descobrindo como hétero que ama bi e descobrindo minha mulher que é bi e ama um hétero.”
Ler essas coisas me deu um alívio, pois mostra o quanto ele evoluiu na aceitação e que assim eu poderia perder o meu medo dele não me querer mais!
Hoje as coisas são o extremo oposto ao que era há 5 meses! O Humberto aceita minha bissexualidade por completo, e o melhor de tudo: a respeita. Agora ele confia em mim, independente da minha verdadeira sexualidade. Ele sabe que, se fosse pra eu deixá-lo por outra pessoa, poderia tanto ser por uma mulher como por um homem, não é verdade? Hoje eu sou uma mulher feliz, tanto por ter esse relacionamento maravilhoso, como por finalmente poder me abrir pra ele, ser realmente quem eu sou, sem fingimento, sem mentiras nem omissões. Posso falar do meu passado sem medo de repreensão, retaliação ou preconceito.
Sim, estou feliz, mas poderia estar mais! Poderia ter feito isso de me assumir pra os meus irmãos. Poderia chegar pra minha mãe e pedir mais respeito. Assumir não é só falar, é quebrar toda uma máscara pesada que cobre um enrustido da cabeça aos pés, é abrir as portas do armário e finalmente... Respirar! Ainda não sou completamente feliz... Ainda olho nos olhos das pessoas que me cercam e pergunto: “E se?”. Mas, num lampejo de medo, desisto.
É... Quem sabe um dia eu possa comemorar o Dia Internacional da Bissexualidade de verdade!
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E o assunto com o qual dei de cara hoje foi o mesmo sobre o qual meu blog trata: bissexualidade. Também sobre isso de rotular tudo, inclusive a sexualidade. Acho que temos a vida toda pra descobrir em nós mesmos as nossas verdadeiras características e particularidades sobre qualquer aspecto sobre nós como indivíduos, então não adianta dizer “ah, eu sou 100% hetero” se você nunca ‘provou’ alguém do mesmo sexo... Era como eu dizia quando criança: “Ah, eu não gosto de graviola”, mas, depois de tantos anos (ano passado, creio eu), provei da fruta e simplesmente amei! Digamos que hoje o sorvete de graviola é um dos meus favoritos! Não que eu esteja afirmando que TODO MUNDO É BISSEXUAL ou tem lá seu pezinho no fim do arco-íris, mas acho que leva-se tempo pra ser tão firmemente afirmativo sobre opiniões e características (tão) pessoais. Eu também era 100% heterossexual até os meus 18 anos, até que percebi em mim uma certa tendência em admirar mulheres de uma forma... diferente!
Do nada você arruma uma amiga e começa a andar com ela pra todos os cantos. Por mais que você seja discreta, sempre fica alguma coisa no ar. Não sei se é bem vacilo de uma das partes, mas às vezes me parece que é a maldade nos olhos das pessoas, que vêem coisas onde 'não existem'. Pôxa, ninguém pode ter uma ‘amizade’ em paz?
Quem é bissexual (ou gay) não-assumida passa por essas coisas, a não ser que você simplesmente deixe de ter qualquer tipo de relação homo afetiva pra que as pessoas não possam desconfiar. Por outro lado, viver se escondendo é péssimo!
Assisti a um programa na semana passada na TV Novo Tempo chamado 'Sem Tabus' (veja os vídeos 


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